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Meninas de Sinhá viajam pelo Brasil cantando músicas de infância. Mulheres com idade média de 70 anos cantam e dançam velhas cantigas.
Grupo com 32 mulheres recebe um cachê para cada show.

 

noticia01-globoacaoNão se espera quase nada de uma mulher que vive num lugar com poucas oportunidades. Espera-se que ela seja resignada e suporte a vida como se apresenta, sem ousadias.
Isso pode parecer normal para muita gente, mas não para dona Valdete, uma ex-empregada doméstica de 71 anos de idade que reinventou a própria vida. Ela não tinha nem pai nem mãe nem sobrenome nem data de nascimento.
Como sobrenome dona Valdete escolheu o mais comum: Silva. Para a data de nascimento escolheu o Dia da Pátria: 7 de setembro. Conquistada a independência, ela inventou um jeito de devolver alegria e esperança para outras mulheres: amigas, vizinhas e conhecidas do Alto Vera Cruz, em Belo Horizonte, Minas Gerais.
Assim, nasceu o grupo Meninas de Sinhá. São mulheres com idade média de 70 anos que cantam e dançam velhas cantigas de domínio público.

O grupo nasceu por causa do jeito da dona Valdete de prestar atenção na vida dos outros e puxar conversa com todo mundo pela rua. Ela que só estudou até o segundo ano primário sempre percebeu que a vida podia ser melhor do que estava e lutava por isso.
“Quando eu me mudei pra aqui, a primeira coisa que eu quis foi melhorar bairro que eu tava morando. Eu comecei a convidar as mulheres vizinhas pra gente formar um grupo. Então, fomos lutar pela água e pela luz. Aí eu continuei na luta e me tornei uma líder da comunidade”, diz dona Valdete.

A dona Valdete trabalhava na limpeza de um centro de atendimento para jovens que ficava vizinho a um posto de saúde e ela reparava na quantidade de mulheres que saíam de lá com as mesmas caixas de remédios nas mãos: antidepressivos.
“Eu não era essa pessoa que eu sou aqui agora. Eu era uma pessoa difícil por causa dos problemas e daqueles remédios. Eu tomava remédio e dormia. Onde eu estava, eu caia”, lembra a aposentada Dorvalina Maria de Oliveira.
“Quando eu entrei para o grupo eu estava muito depressiva. Eu não gostava de conversar com ninguém. Tinha muitos problemas”, diz Diva de Oliveira
Aposentada.

Quando as Meninas de Sinhá, já longe de serem meninas, começaram a querer brincar de roda outra vez eram apenas quatro mulheres, além da Valdete. Hoje são 32. Elas não têm patrocínio fixo. Recebem um cachê para cada show, que é a oportunidade para vender o CD que gravaram. O grupo ensaia no espaço cedido pela Associação Comunitária do Alto Vera Cruz e conta com a ajuda de duas monitoras, uma paga pela prefeitura de belo horizonte e outra pelo próprio grupo.
No começo quem inventava os exercícios era a própria Valdete, depois de prestar muita atenção nas aulas gratuitas de expressão corporal que frequentou num projeto social. A ideia era trabalhar a auto-estima das mulheres.

“Um peguei um papel craft e pus no chão. Pus uma das mulheres deitada e fiz outra fazer o contorno da outra. Depois de pronta, eu falei para elas fazerem os órgãos genitais. Foi difícil. Uma delas ficou vermelhinha na hora e falou que não ia fazer. Eu disse que tinham de fazer porque como ficaria a mulher sem nada?”, diz Valdete.
Quem são as Meninas de Sinhá? A grande maioria do grupo trabalhou um dia como empregada doméstica ou foi operária em alguma fábrica ou simplesmente era dona de casa. Todas viviam e ainda vivem nos bairros pobres de Belo Horizonte, Minas Gerais, bem longe da paisagem de prédios e da moldura bonita da Serra do Curral. Do alto o que se assiste é a impossibilidade dos acessos e a passagem é um lugar estreito, interminável, um pouco beco, um pouco labirinto.
A aposentada Diva de Oliveira não mora na serra. Esse é o lugar onde recolhe latinhas para vender. Como já é conhecida no bairro, os moradores levam as latinhas. Enquanto espera, cuida da rua. Enquanto canta, espanta seus dramas.

“Meu filho morreu na cadeia com HIV. Está com 20 anos que eu perdi meu marido. Eu criei 12 filhos catando papel. A luta que eu tive e tenho até hoje, eu que não me entrego”, avisa Diva.
O caminho de Diva é comprido. Quando vai chegando em casa chama pedindo ajuda dos vizinhos.
No palco, elas são artistas e estão livres de toda dor. São meninas outra vez, entretidas em cantigas de infância. Valdete não se cansa e está sempre atenta. Ela sabe reconhecer em cada senhora do bairro uma nova promessa para as Meninas de Sinhá.

Fonte: Globo Ação